sexta-feira, 28 de março de 2014

A DIFÍCIL VIDA DE SERTANEJO DA ROÇA




Cruz. Nasci na Fazenda Barra, Município de Augusto Severo – RN (hoje, Campo Grande) e logo, ainda criança, aos seis anos de idade, iniciei a fazer tarefas próprias dos povos do campo na agricultura e pecuária.

Antonio dos Santos de Oliveira lima

Plantação de Arroz
Meu primeiro trabalho foi pastorar uma plantação de arroz na vazante do meu pai, no Açude do Morcego, no final do ano de 1957. Acordava sedo, pois tinha que chegar à vazante primeiro que os passarinhos. Embora o local de trabalho fosse há poucos metros de casa, eu não podia sair, porque os passarinhos chegavam aos rebanhos e atacavam os cachos de arroz. Para espantá-los, meu pai construiu uma “funda” para jogar torrões nos pássaros. Trabalhei até ao final da colheita para ganhar um par de alpercatas e rabicho.
Criação de Gado
O meu segundo trabalho foi pastorar gado ao redor das vazantes nas margens do Açude do Morcego, pois, meu pai pretendia engordar uma vaca preta por nome de Jarina para vender e comprar uma máquina de costura de pé para minha mãe que era costureira e usava uma pequena máquina de mão.
Máquina de costura manual

Depois, a vaca foi vendida e a máquina Merckswiss foi comprada na cidade de Janduís-RN por C$ 1.500,00 no inicio do ano de 1959.
Máquina de Pé
  A dificuldade de encontrar ração para os animais era muito grande por causa da seca. Com o inicio das chuvas em 1958, nasceu pastagem entre os galhos de árvores que se encontravam amontoados no campo. Eu me levantava cedinho, comia leite de cabra com cuscuz ou farinha, e acompanhava as ovelhas e cabras para o campo aonde eu ia retirar os galhos de árvores para os animais comerem as pastagens que crescia entre os galhos secos das árvores que meu pai tinha cortado quando tirava madeira para fazer a reforma das cercas da propriedade. Era uma missão muito difícil, pois, requeria muita força para puxar os galhos das árvores. E eu sendo muito pequeno, tinha esta dificuldade. Após remover os galhos, os animais faziam a maior festa. Passado as primeiras chuvas, a seca foi instalada e só voltou no inicio de 1959. Ao meio dia, eu retornava para almoçar e passar o resto dia brincando com um carro de boi que tinha comprado por Cr 10,00. Com as primeiras chuvas, houve uma boa safra de frutas de juazeiro que eu colhia e levava para casa para dá aos meus irmãos. Eram frutas grandes e doces, que eu nunca tinha visto. Minha mãe acordava sendo e ia para as vazantes colher as folhas secas que ficavam por baixo das ramas de batata para dar de comer aos animais. Certo dia, uma pessoa havia deixado um carro de mão em nossa casa e minha mãe me mandou buscar os sacos de folhas de batata e eu levei o carro de mão. Como tinha que subir uma ladeira na chegada de casa, eu não conseguia empurrar o carro. Por causa disso, demorei a acabei levando uma boa surra para subir a ladeira empurrando o carro de mão. Outro dia, meu pai estava construindo uma cerca na frente da casa e já tinha feito os buracos para fixar as estacas quando me disseram que as vacas estavam passando para as vazantes. Era a hora do almoço. Eu corri chupando um pedaço de madeira do cabo de uma baladeira que minha mãe tinha encontrado nas vazantes quando retirava as folhas para alimentar os animis. Ao passar pelos buracos da cerca, escorreguei e cai com um pé dentro do buraco e bati com a cara no chão. O pedaço de madeira perfurou o “céu da boca” e botou muito sangue. Meu pai foi à cidade de Augusto Severo e comprou 6 injeções que foram todas aplicadas por um senhor chamado por Jeová Liberato.
Por causa da seca, tivemos que permanecer no Açude do Morcego até achegada do inverno em 1959, quando retornamos para a nossa antiga morada na Fazenda Barra de propriedade de Otoni Fernandes Maia, as margens do Rio Upanema.
Como já estava mais crescido, continuei a trabalhar na lida com o gado. Conduzir as vacas para o curral, amansar bezerros bravos, cavalgar no campo, época em que sofri várias quedas de cavalos chegando a passar muitos dias doente. Depois, passei a auxiliar na ordenha das vacas, tendo que acordar cedo, coisa que eu sempre detestava. Finalmente, passei a fazer a ordenha sozinho.
Na roça, meu principal trabalho era puxar boi para aradar o solo ou mesmo manobrando o cultivador, um serviço muito pesado que me exigia força e habilidade.