terça-feira, 1 de novembro de 2011

Prazer em conhecer: Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e escritor Paulo Gastão - Parte II



Com quantos e quais personagens desta história você teve contato?

Não tenho número fixo que venha a determinar quantos personagens mantive contato. Tudo começou na minha infância/juventude pelo fato da ambientação em que nasci. Convivi com comerciantes, professores, médicos, militares, gente do povo que conheceram inúmeros cangaceiros, volantes, coiteiros e outros personagens significativos para com a história do cangaço. Aos nove anos de idade já conhecia a terra de Virgolino, de Antônio Silvino, de Félix da Mata Redonda onde eu ia caçar passarinho de baladeira, de Luiz Pedro do Retiro aonde ia aos engenhos daquela localidade tomar garapa ou adquirir a melhor porção de farinha fabricada no Nordeste.


Em segundo plano, já possuidor de conhecimentos históricos, fui registrando no meu caderno de anotações Senhor da Beleza, dona Especiosa (costureira de Lampião), Sila, Candeeiro, Maria de Juriti, Adília, Tenente João Gomes de Lira, Auricéia, Artur Ferreira (primo de Lampeão), Neco de Pautila, dona Mocinha (irmã de Lampeão), o coiteiro Pedro de Tercila e o sargento Elias que residiam em Olho d’Água do Casado, Estado de Alagoas, Vinte e Cinco, o comerciante Chiquinho Rodrigues, familiares de Jararaca – os irmãos Félix, Quitéria e outros; Silvio Bulhões, (filho de Corisco e Dadá) Dona Ermelinda, Tenente Pompeu, aos familiares de Luiz do Triangulo, Jardilina Pereira Nóbrega – Jarda (esposa de Chico Pereira e seus dois filhos Raimundo (engenheiro) e Pereira da Nóbrega (religioso), que escreveu o livro – Vingança, Não), e muitos outros personagens ligados direta ou indiretamente ao cangaço.


É uma lista rica em nomes e muito, muito extensa, trabalho de mais de 30 anos na estrada. E haja memória. Todos espalhados, inicialmente, pelas vilas de outrora, e na atualidade por uma geografia modificada pelo atrevimento dos políticos.


Sinto-me feliz em ter palmilhado os sertões de todos os estados nordestinos, onde o cangaço se fez presente, uns mais, outros menos, mas a todos visitei em busca de conhecer a história e em seguida informar o que havia tomado conhecimento.


Conheci Paulo Afonso em 1955, tendo pousada oferecida pela CHESF aos seus visitantes, na famosa Casa de Hospedes. Até então era um conglomerado de casas para hoje se tornar uma cidade extremamente aconchegante e progressista.


Qual destes contatos foi, ou foram, os mais difíceis?

Não existem contatos fáceis ou difíceis. O que na realidade existe é o pesquisador saber dar inicio a uma amizade e conservá-la indefinidamente. Por onde andei a conversa era sempre a mesma, em que o candidato a escritor ou jornalista prometia céus e terra e depois sucumbia e ninguém sabia do seu paradeiro.


É necessário saber chegar a essas pessoas e mais, saber que um dia se terá o caminho da volta. Na maioria das vezes as portas estão fechadas. Porém, tentei durante várias vezes, que representam vários anos, conhecer, que é diferente de entrevistar ou manter contato e que agora recordo da situação vivida frente ao amigo Vinte e Cinco. Foram muitos os caminhos para se chegar a esta figura séria, objetiva e sabedora do que deseja na vida. Duro, esclarecedor e exigente. Sincero e receptivo. Uma grande figura humana. Valeu a pena conhecê-lo. Poderia citar outros nomes, mas, este já me chega.


José Alves de Matos O Vinte e cinco.
Foto: acervo João de Sousa Lima 

Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado?

No querer descobrir novos nomes que participaram do cangaço sempre estava atento. A escassez aumentava a cada um que ia surgindo. Qualquer sinal de um novo personagem acionava meus amigos na busca do desejado. Mestre Alcino Costa é o responsável por descobrir, já no fim da vida, Maria de Juriti. Residia a mesma com a família em boa casa, numa rua afastada do centro da cidade ribeirinha de Canindé do São Francisco no estado de Sergipe. Tentei durante uma manhã arrancar uma palavra dessa senhora e tudo foi em vão. Ela me olhava de olho duro, me ouvindo pedir uma oportunidade de uma pequena conversa, desde que eu apresentava uma série de argumentos para convencê-la e terminei rodando meus 1.000 quilômetros para chegar em casa sem ter conseguido uma só palavra. Poderia ter conseguido um grande depoimento, mas, infelizmente a chance foi se dissipando a cada minuto. Morreu Maria de Juriti e as minhas esperanças.


Com qual remanescente gostaria de ter conversado?

O melhor personagem para o momento teria sido aquele que não deu nenhuma entrevista ou a menor informação sobre o assunto. Este personagem elucidaria e muito os momentos mais críticos que hoje vivemos e não temos uma solução plausível. Não necessita ser homem ou mulher, soldado ou coronel, deputado ou cabeceiro, professor ou boiadeiro. A conversação que eu desejaria estaria atrelada aos subsídios que até hoje tem passado despercebidos. Foi criada uma sistemática de registro e a grande maioria simplesmente fez como rebanho de carneiro – onde um passa ou pula os outros vão atrás, com raríssimas exceções. As mudanças têm que ser criadas e adotadas para que a história tenha continuidade. Estilo papel carbono não dou valor!

Qual é o seu capítulo preferido?

 A vida nas caatingas tem que ser tratada com carinho e objetividade. Ler sobre os acontecimentos ocorridos naquelas plagas é simples, mas, para quem já viveu nos chamados ‘matos’ a diferença é brutal, inacreditável. Tive muitas oportunidades de viver nos sertões, principalmente, de Princesa Isabel e Patos de Irerê na Paraíba e Flores estado de Pernambuco. O banho de cuia, a latrina no mato, a rede em substituição a cama, a ausência de alimentos comuns das cidades, tais como: pão aguado, (na cidade denominado de francês), pão doce, bolachas de vários tipos e sabores, refrigerantes, macarrão e outros.
O café era tomado na roça tomando-se os frutos próprios da região, tais como: melancia, melão caetano - que cheira mais que qualquer perfume francês-, pinha, laranja, banana, goiaba e muitos outros. No almoço feijão de corda e carne assada; no jantar, a noite, cuscuz com leite de gado puro, angu preparado do milho com caça obtida durante o dia quando se cuidava dos animais, queijo de coalho assado preferencialmente ou queijo de manteiga. A manteiga era a tradicional manteiga de gado, nas cidades chamada manteiga de garrafa. Na época do “imbu” (Umbu) a noite se fazia uso da imbuzada e como sobremesa do almoço a saborosa geléia de imbu, maravilhosa.
Não podia faltar os banhos nos rios, riachos, açudes e lagoas. Cuidar da vacaria, enchiqueirar as miuças e encaminhar os bichos de pena para os seus respectivos poleiros. O feijão verde era debulhado em conversas sobre vaquejadas, cangaço, caçadas, cantorias e outros assuntos que são próprios dos diálogos dos sertanejos.
A ausência de luz elétrica nos levava as redes até as 8:00 horas para acordarmos com o galo cantando lá por volta das 5:00 horas da manhã. Os mais velhos contavam histórias fantásticas sobre os cangaceiros. Tornavam seus relatos cheios de momentos apavorantes tanto quanto dos monstros que viviam nos oceanos. Ninguém cochilava ou adormecia vivendo com intensidade o próprio retrato dos habitantes das caatingas.
A leitura do folheto de cordel era uma constante, pois sempre era adquirido quando se chegava a cidade em dias de feira.

 Nada de TV nem de cinema. As primeiras viagens de Paulo eram a bordo das setilhas, sextilhas, decassilabos... etc.

Não faltavam as história do rei Ricardo Coração de Leão e os Doze Pares de França e ainda era lido o Lunário Perpetuo, obra editada em Portugal, onde se buscava leitura aprazível para se conseguir condutas lá vividas e aqui adaptadas. Épocas de preparar a terra, plantar e colher eram muito bem apresentadas. Mostrava-se com muita pujança o poder dos astros e isto se coadunava com a filosofia de vida do sertanejo e seu misticismo próprio e não lapidado. Todas as noites após a janta nos dirigíamos a uma dependência da casa, chamada de camarinha, onde se encontrava vários santos, de madeira, protegidos em oratório e ali contritos rezávamos juntos homens e mulheres o terço, todos compenetrados e não se falhava uma noite sequer. A religiosidade do sertanejo é tão forte quanto o mesmo.
Viver diretamente com as comunidades sertanejas é um grande aprendizado e uma feliz oportunidade. Nenhum autor se debruçou na janela da caatinga para observar e descrever em profundidade a vida do povo sofredor nas garras dos cangaceiros e volantes. Ai reside um capítulo virgem de pesquisa objetiva e descritiva que só enobreceria a comunidade nordestina. O maior erro tem sido em se enaltecer a figura de Lampião, deixando-se ao largo o capítulo principal de toda a historiografia do cangaço – o POVO sertanejo. O povo está seguindo sua caminhada e Lampião dentro em breve será esquecido ou as descrições a seu respeito não deverão ter nenhum valor. O lado comercial reveste o personagem e o mesmo já se encontra engessado.
O conceito não é a história e sim o vil metal. Necessário se faz registrar que o cangaço ainda vive com seus últimos representantes que continuam contando fatos ocorridos ou não. O que irá ocorrer daqui a 50 anos? 

 CONTINUA...


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O RN NA REVISTA FON-FON


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Um homem de lutas e de amizades

Por: José Mendes Pereira

Hoje, bem cedinho, seis horas da manhã, ouvi uma música que me veio a lembrança de um dos mais conhecidos no meio do estudo "cangaço", e tenho plena certeza, que todos que compõem a saga cangaceiróloga do nordeste brasileiro, gostariam de oferecer esta canção ao ex-prefeito de Poço Redondo (por três gestões), e escritor:


Alcindo Alves da Costa.

A canção diz o que realmente, cada admiração por alguém, seja preservada  e deve  ser  guardada debaixo de sete chaves.

Não o conheço pessoalmente, apenas através de fotos e vídeos, mas pelo que os seus confrades dizem sobre a sua generosidade com as pessoas, o respeito, a admiração que guarda de cada um, merece a "Canção da América". 

A "Canção da América" não é oferecida a qualquer um (é como um troféu, nem todos têm direito a ele),  é para aquele que todos falam bem dele, e que o elegeram como o melhor amigo, e que jamais ouviram ele dizer algo machucante contra os outros. 

Não adianta querer ser merecedor da "Canção da América". Ela é oferecida por expontânea vontade dos  amigos, não com exigência. Não adianta endeusar os outros na presença, e quando se retira, lá fora, o outro é um verdadeiro satanáz. Ser amigo é não escolher por riquezas, por beleza, por cor, ou outra coisa parecida; cada um é como Deus o fez.

Não adianta morrer por amigo, defendê-lo é muito arriscado, pois estará  colocando a sua vida em perigo. Não adianta dizer ao amigo o que os outros dizem contra ele, pois estará o colocando num mundo de desavença. O certo é se retirar do lugar e fim de conversa.

Para o amigo, se deseja o bem, e não o mal.

"CANÇÃO DA AMÉRICA"


Amigo é coisa para se guardar

Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir


Mas quem ficou, no pensamento voou

Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou


Amigo é coisa para se guardar

No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam "não"
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração


Pois seja o que vier, venha o que vier

Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.



 Uma homenagem ao decano de Poço Redondo: Alcindo Alves da Costa

A PROPAGANDA DA FÁBRICA DE DELMIRO GOUVEIA EM MOSSORÓ

Por: Rostand Medeiros
Photo

- Dedicado ao amigo José Mendes Pereira, organizador do site



 http://blogdomendesemendes.blogspot.com/ e um orgulhoso mossoroense.
Há poucos dias neste “Tok de História”, publiquei uma informação sobre o lançamento do interessante livro “Quem Matou Delmiro Gouveia”, do amigo
Gilmar Teixeira Santos, competente historiador baiano (Ver –http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/10/26/novo-livro-sobre-delmiro-gouveia-e-a-sua-morte/).
Motivado por este lançamento, andei cascavilhando meus alfarrábios e encontrei em antigas páginas do jornal “O Mossoroense”, de 1917, pouco antes do assassinato de Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, a propaganda do seu empreendimento mais famoso, a “Fábrica da Pedra”.
Manchete da morte de Delmiro
Localizada na Vila da Pedra, atual município de Delmiro Gouveia, as margens do Rio São Francisco, foi aqui que este industrial, nascido em Ipu, Ceará, em 5 de junho de 1863, com sua inigualável visão empresarial, criou o que os estudiosos definem como o primeiro polo industrial do Nordeste brasileiro, através da criação da primeira fábrica voltada para a indústria têxtil em pleno sertão alagoano.
Jornal "O Mossoroense"
Denominada Companhia Agro Fabril Mercantil, iniciou sua produção em junho de 1914. O lugarejo logo prosperou, tendo sido criados o telégrafo, realizada a abertura de 520 quilômetros de estradas para escoar a sua produção, isenção de impostos para a futura fábrica, permissão para captar energia da cachoeira de Paulo Afonso, construção de 200 casas de alvenaria na Vila Operária da Pedra e outros benefícios para seus trabalhadores. Segundo dados existentes, nesta fábrica chegaram a serem produzidos, em 1916, mais de 500.000 carretéis de linhas para costura.
O negócio chegou ao ponto de exportar sua produção para a outras nações, como Argentina, Chile, Peru e Bolívia.
O Rio Grande do Norte teve uma larga participação neste negócio. Se no início Delmiro importou algodão do Egito como matéria prima, logo estava utilizando o algodão de fibra longa, vindos do nosso Seridó. Já tive oportunidade de ler notícias do embarque de fardos desta malvácea, via navio, em direção a Vila da Pedra.
Porpaganda da Fábrica da Pedra no Rio Grande do Norte
Nesta relação com nosso estado, chama atenção a divulgação de seus produtos em jornais potiguares, tanto de Natal como de Mossoró.
Nesta última cidade o representante era a firma S. Gurgel, onde a propaganda nos jornais locais da Companhia Agro Fabril Mercantil enaltecia a marca “Estrella”, vendida em território nacional e a marca e “Barrilejo” para o resto da América Latina.
A divulgação era realizada de forma agressiva, onde escancaradamente o produto da Fábrica da Pedra era anunciado como “Melhor que a afamada marca estrangeira Corrente, esta vendida a preços elevadíssimos e a nossa a preços baratíssimos”.
Outro ponto enaltecido era que o carretel de linha estaria por “500 réis ou mais”, se não fosse a fabricação das linhas “Estrella”. Delmiro fazia questão de mostrar o benefício para a população da quebra do monopólio de fabricação de linhas de costura, então um negócio dominado pela fábrica inglesa Machine Cotton, produtora dos carretéis da marca Corrente.
Segundo o site Wikipédia (http://pt.wikipedia.org), a empresa Machine Coats ou Coats Corrente, Coats PLC, ou simplesmente Coats, foi fundada em 1755, na cidade de Paisley, na Escócia, com a fusão das empresas pertencentes aos industriais James Coats e James Clark. Esta é considerada até hoje a maior empresa multinacional de materiais têxteis e de costura para uso doméstico e industrial. Possui mais de 25.000 empregados, com linhas de produção em 65 nações nos cinco continentes e seus produtos são vendidos em mais de 150 países.
No Brasil a Coats se estabeleceu inicialmente em São Paulo, no dia 18 de junho de 1907, no bairro do Ipiranga, com o nome comercial de Linhas Corrente. Atualmente a empresa tem quatro filiais em nosso país.
Não sei se de forma exagerada, ou não, mas a propaganda afirmava que a fábrica da Vila da Pedra empregava “2.000 pessoas”.
A destacada propaganda da Companhia Agro Fabril Mercantil, publicada no jornal “O Mossoroense” de 1917, mostra como a empresa estava atuante no mercado nacional e sua propaganda enaltecia fortemente o seu progresso e um caráter tipicamente nacionalista, muito comum naquela época.
Mas naquele mesmo ano, como mostra o livro “Quem Matou Delmiro Gouveia”, do amigo Gilmar Teixeira Santos, o preogressista industrial foi brutalmente assassinado. Consta que por pressão da Machine Coats, os herdeiros de Delmiro venderam a fábrica à esta  empresa inglesa. Em uma atitude típica de capitalistas detentores de monopólios e com espirito tipicamente de colonizadores, os ingleses mandaram destruir as máquinas de Delmiro, demolir os prédios, e lançar tudo no Rio São Francisco, buscando apagar uma incômoda concorrência e retirar da memória local qualquer ideia de empreendedorismo.
Em minha opinião, apesar de tudo que aconteceu, Delmiro Gouveia não possui o merecido reconhecimento quando o assunto é a história do Nordeste brasileiro.
ADENDO
Antonio Ferreira da Silva Neto, de Natal-RN, organizador do "Blog do Neto", http://afnneto.blogspot.com/2011/10/novo-livro-sobre-delmiro-gouveia-e-sua.html fez o seu comentário sobre Delmiro Gouveia.
Caro amigo Rostand.
Muito boa sua matéria, gostei muito.
Concordo com você, quando diz que o Coronel Delmiro Gouveia não tem merecido reconhecimento quando o assunto é a história do Nordeste brasileiro, tanto esse grande empreendedor, quanto outros que fizeram parte da nossa história, não são devidamente lembrados. Fico muito feliz com essas postagens, pois é uma maneira de resgatarmos os acontecimentos que marcaram época no nosso país. Uma maneira de divulgar para as populações que existiram pessoas que contribuiram para e empreedorismo e história do nosso Brasil, seja no nordeste ou região sul. 
Atenciosamente,
Neto
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Extraído do blog "Tok de História, do historiógrafo
Rostand Mediros
http://tokdehistoria.wordpress.com/

Prazer em conhecer: Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e escritor Paulo Gastão - Parte I



Quem é Paulo Medeiros Gastão?

Eu vos digo que é um ilustre pernambucano de Triunfo da Baixa Verde. Nasceu naquele histórico 1938, quatro meses depois do desaparecimento daquele seu vizinho de cidade cuja existencia viria a ser uma de suas obsessões. Hoje um cidadão Mossooense. Fundador da SBEC - Sociedade brasileira de estudos do cangaço; enviado especial da Laser Vídeo a diversos cenários da saga lampiônica. Membro fundador da Fundação Vingt- un Rosado, da Academia Mossoroense de Letras. Sócio do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), ex- professor da Universidade Regional do Rio Grande do Norte e da Escola de Agricultura de Mossoró (RN). Desfila pelo Brasil profundo mesmo agora com o charme dos seus 72 anos (Há quem diga que seja um tiquinho a mais, talvez emparelhado com o próprio Lampa) mas conservando um corpinho de 50.
Daqui pra frente ele mesmo se encarrega. Eu não considero o termo entrevista... Apresentamos o "Método Paulo Gastão do cangaceirólogo moderno" 
Como se dá sua entrada no cangaço? 

Comecei a conhecer a ambientação em companhia do meu pai, que vendia seus produtos em caminhão próprio. Suas atividades estavam resumidas aos sertões de Pernambuco, Paraíba e sul do Ceará. Assim fui sendo apresentado a inúmeras pessoas que na década de 50 (século XX), que participaram direta e/ou indiretamente do movimento cangaceiro. Conheci muitas vilas que hoje são cidades com seus respectivos nomes de outrora. Ex.: Rio Branco = Arcoverde; Alagoa de Baixo = Sertânia; Vila Bela = Serra Talhada; Queixada = Mirandiba; Patos de Princesa = Irerê; Patos de Espinhara = Patos; Pajeú de Flores = Flores; Placas = Cruzeiro do Nordeste e muitas outras localidades. E assim começaram meus estudos da geografia nordestina e cangaceira.


Do ponto de vista da leitura, consegui numa livraria da Rua da Aurora com Rua da Imperatriz na cidade do Recife ‘O mundo estranho dos cangaceiros’ de Estácio de Lima. Isto foi lá pelos idos de 1970. Em período anterior sob orientação dos meus professores, todos de origem européia, minhas leituras eram dirigidas para escritores do velho mundo, e na qualidade de religiosos, procuravam afastar os autores da União Soviética, não sabendo eles da força, vigor dos contistas e romancistas russos. Hoje, concluo que cheguei atrasado para pegar a Maria Fumaça que me levaria aos sertões, mas, ainda cheguei a tempo. Todo e qualquer tempo para se degustar uma boa leitura, é tempo ideal, independente inclusive da faixa etária. O crescimento em busca de novos relatos ocorreu em progressão geométrica, me tornando verdadeira ‘traça’ de livros. Mas, tive como ponto de partida a Zona da Mata ou litoral onde tomei conhecimento da obra de José Lins do Rego com Menino de Engenho, Moleque Ricardo, Banguê e Usina que compõem o ciclo da cana de açúcar. Depois vieram outras obras deste e de outros autores.

Então apresente suas crias.

As lançadas são: Contribuição a uma Bibliografia do Cangaço – 1845-1996. 1996; Carta a Almeida Barreto (notas e comentários), 1999; Quem é Quem no Cangaço – Dicionário dos escritores do cangaço, 2002; Na Rota dos Coronéis, Cangaceiros e Beatos, 2005; Viagem ao São Francisco – do Litoral ao Sertão, 2006; Seriema – Ave em extinção, 2010.

Qual o Filho predileto?

O que me levou a trabalhar com bibliografia sobre o cangaço foi o fato de os pesquisadores não tinham onde buscar as referências necessárias ao bom andamento das suas pesquisas. Surgiu então o título – Contribuição a uma bibliografia do cangaço – 1845 – 1996. Espero que a cooperação tenha sido de real utilidade.

Livro de outro autor. Por que?

Pergunta muito delicada e que merece uma análise, mesmo que sucinta. Temos que levar em consideração a época em que viveu o escritor; das nuances descritas, se de caráter geral ou trabalho referente à sua região de origem; no que diz respeito ao conteúdo, se retrata a parte civil ou militar; se simples entrevista ou analítico propriamente dito; se específico ou complementar de outro assunto correlato; se por experiência vivida ou por ocasião de pesquisa de campo; tese de mestrado ou doutorado; etc. Afinal minha escolha recai para Aglae Lima de Oliveira e seu memorável ‘Lampião, Cangaço e Nordeste’.


Seu trabalho é feito numa época onde cangaço não tinha nenhum valor cultural, educacional e poucos livros tinham sido escritos. Ela levantou uma bandeira e segurou, indo mostrar o nosso valor nas telas da TV no Rio de Janeiro. Um grande feito para a época. Éramos nós nordestinos muito provincianos em matéria de leitura, exceto nas grandes cidades e com poucos adeptos. Sertaneja conhecia as veredas do sertão e assim soube fazer um relato reconhecido até os dias atuais. Como mulher buscou se colocar ao lado de Raquel de Queiroz, desde que raras mulheres se apresentavam como escritoras, principalmente, em se tratando de assuntos vivenciados por este mundo nordestino que muitos ainda tratavam como os do ‘norte’.
Porém, não posso perder a feliz oportunidade de percorrer nas largas estradas construídas pelo Lampião aceso, sob o magistral comando de Kiko Monteiro e não mencionar um épico do cangaço, principalmente por ter conhecido e convivido com pessoas ligadas ‘Vingança – Não, obra sobre Chico Pereira.



Qual é o primeiro título recomendado para um calouro?

Vários autores se dedicaram a um determinado personagem; a uma região (estado); a pequenos relatos, etc. Para se ter uma visão mais ampla do mundo cangaceiro, recomendo a obra do padre Frederico Bezerra Maciel, intitulada – Lampião, seu tempo e seu reinado, em 6 (seis) volumes (1985-1988); além de Carnaíba a Pérola do Pajeú - 1992. O autor se esmerou em situar o leitor ao meio ambiente da matéria descrita, quando elabora mapas elucidativos, sendo o único escritor que assim se portou. Leitura objetiva sem a condição acadêmica.

CONTINUA...


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CRACK, A DROGA QUE NÃO FORMA CRAQUES


Por: Archimedes Marques



Estamos em aguda e profunda crise urbana e social relacionada ao crack, essa droga avassaladora, aniquiladora e mortal que vem fazendo vítimas e mais vítimas diariamente
em todo canto do nosso País. O crack trás a morte em vida do seu usuário, arruína a vida dos seus familiares, aumenta a criminalidade onde se instala, degrada e mata mais do que todas as outras drogas juntas.
De poder sobrenatural o crack pode viciar o usuário já na sua primeira ou segunda experiência e o que vem depois é a tragédia certa. Crack e desgraça são indissociáveis e quase palavras sinônimas. Relatos dos seus usuários e familiares, fatos policias diários e opiniões de especialistas sobre os efeitos e as conseqüências nefastas da droga podem ser resumidos em três palavras tão básicas quanto contundentes: sofrimento, degradação e morte.
A composição química do crack é simplesmente horripilante e estarrecedora. A partir da pasta base das folhas da coca acrescentam-se outros produtos altamente nocivos a qualquer ser vivo, tais como: ácido sulfúrico, querosene ou solvente e a cal virgem, que ao serem processados e misturados se transformam numa pasta endurecida homogênea de cor branco caramelizada onde se concentra mais ou menos 50% de cocaína, ou seja, meio à meio cocaína com os outros produtos altamente nocivos citados. A droga é fumada pura, misturada num cigarro comum ou num cigarro de maconha que recebe a denominação de “bazuca”.
A fumaça altamente tóxica do crack é rapidamente absorvida pela mucosa pulmonar excitando o sistema nervoso, causando inicialmente euforia e aumento de energia ao usuário, com isso advém, a diminuição do sono e do apetite com a conseqüente perda de peso bastante rápida e expressiva.
Logo os efeitos nefastos biológicos aparecem para os seus usuários, tais como: aceleração ou diminuição do ritmo cardíaco, dilação da pupila, elevação ou diminuição da pressão sanguínea, calafrios, náuseas, vômitos, convulsão, parada respiratória, coma ou parada cardíaca, infarto, doença hepática e pulmonar, hipertensão, acidente vascular cerebral (AVC).
Além disso, para os fracos e debilitados usuários sobreviventes, ao longo do uso da droga, há perda dos seus dentes, pois o ácido sulfúrico que faz parte da composição química do produto assim trata de furar, corroer e destruir a sua dentição. O crack também causa a destruição dos neurônios e provoca a degeneração dos músculos do corpo do seu usuário, fenômeno esse conhecido na medicina como rabdomiólise, o que dá aquela aparência esquelética ao indivíduo com ossos da face salientes, pernas e braços finos e costelas aparentes.
O crack é tão perigoso que até o próprio traficante que tem consciência desse perigo, de tal droga não faz uso. Dificilmente e raramente um traficante usa o crack o que não ocorre com os outros tipos de drogas em que muitos deles também as utilizam em consumo próprio.
A disseminação do crack é constante e diariamente prende os menos avisados assim como uma teia de aranha para as suas presas, transformando as suas vítimas em verdadeiros mortos-vivos a perambular pelo submundo da sociedade.
Pesquisando junto às opiniões dos médicos e especialistas em tratamento dos drogados conclui-se que realmente estamos perante uma epidemia, porque há um número explosivo de casos nos últimos três anos. Antes era uma raridade, havia nas unidades hospitalares
especializadas 90% de outras dependências e 10% de crack. Hoje há o contrário. É unânime o conceito dos especialistas em afirmarem categoricamente que o crack é uma droga diferente das outras, muito mais severa e contundente.
Não há outra droga que produza um declínio físico e mental maior para o viciado quanto o crack.
Segundo estudos realizados por especialistas na área, as dificuldades para o tratamento dos viciados em crack também são imensas, por isso, a grande preocupação das autoridades ligadas ao tema da intensa problemática. É preciso de extrema força de vontade do próprio viciado para poder se livrar desse malefício infernal.
A conscientização e o investimento em massa na área da educação, na prevenção, com aulas, palestras, seminários e um convívio mais profundo e dialogado no seio da sociedade especialmente entre pais e filhos, poderá livrarnos dessa epidemia. Não podemos achar que a polícia ou a medicina resolverão os problemas, que, muitas vezes, se iniciam nos lares, escolas e outros lugares de convivência, principalmente dos jovens, mais expostos, por vários motivos, à atração do mundo das drogas. No País do futebol precisamos sempre formar mais e mais competentes e excelentes atletas craques da bola, do esporte e não incompetentes e debilitados cracks desta droga satânica.

Dr. Archimedes Marques (delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS - Universidade Federal de Sergipe).

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A importância do Cordel na Sala de Aula


Por: José Romero Araújo Cardoso




Veículo de fabuloso fomento à identidade regional, o cordel tem nas camadas populares seus mais constantes e fiéis consumidores, sendo através dos tempos valorizado e cultuado como a verdadeira e autêntica literatura nordestina, o livro de bolso do povo da região.

Há ênfase a diversos clássicos da Literatura de Cordel, os quais são estudados com seriedade em importantes academias espalhadas mundo a fora, não obstante ser recente o estudo desse gênero em Universidade Brasileiras.

Entre esses, destacam-se as produções de Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, José Camelo de Melo, José Pacheco, João Ferreira de Lima, entre outros, inspiradores do Movimento Armorial, criado pela genialidade ímpar de Ariano Suassuna.

A importância de estudar o cordel em sala de aula está sendo enfatizado em projeto ousado e inovador, por título Acorda Cordel, coordenado pelo poeta popular, radialista, ilustrador e publicitário cearense Arievaldo Viana, nascido aos 18 de setembro de 1967, nos sertões adustos de Quixeramobim, terra que também viu nascer o beato Antônio Conselheiro.

Intitulado Acorda Cordel na Sala de Aula, folheto de número 70 da Coleção Queima-Bucha, publicado em Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte, em janeiro de 2006, esse cordel traz ilustração de capa do próprio autor.

Vale ressaltar que Arievaldo Viana foi eleito no ano de 2000, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira de número 40, cujo patrono é o poeta popular João Melchíades Ferreira.

Arievaldo Viana desenvolve sua verve extraordinária alertando sobre a necessidade de primar por normas ortográficas e gramaticais corretas, tendo em vista que o cordel, quando usado para a alfabetização, principalmente de jovens e adultos, deve respeitar a linguagem corrente, sem erros grosseiros que atrapalhem os objetivos propostos em seu projeto de fomento ao processo ensino-aprendizagem.

O autor sintetiza a influência do cordel em sua vida, desde a infância, quando se verificou o contato do mesmo com grandes nomes da literatura regional, cujas histórias eram lidos pela avó com o frenético entusiasmo de quem se rende aos encantos das bravuras e feitos épicos narrados primorosamente em folhetos de diversos mestres do passado.

Arievaldo Viana confessa, sem titubear, que os versos geniais decorados de diversos cordéis, tiveram influência mais incisiva que os livros nos quais estudou. O cordel tinha decisiva importância na formação do povo nordestino em razão que o advento do rádio e da televisão era pouco enfático. A mídia ainda não havia contaminado efetivamente o imaginário do povo nordestino.

A fim de que recuperemos nossa identidade vilipendiada pelos rumos da globalização, o autor frisa a importância de que cada biblioteca estruture sua cordelteca como fonte de saber.

Aviso singular quanto à utilidade do cordel, está contido na necessidade da observância da métrica, rima e oração que cada folheto deve conter, visto que, na brilhante advertência do autor, deve existir seqüência lógica para que o estudo seja contemplado de êxitos.

A influência da avó é destacada intensamente no folheto, como forma de exaltar a importância do cordel na sala de aula, pois conforme o autor, esta teria sido sua mais completa fonte de inspiração para que se desabrochasse o amor pelo gênero mais identificador da verdadeira cultura nordestina.


José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

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