quinta-feira, 27 de março de 2014

Comércio Enganador

Por José Mendes Pereira

Muitas vezes a gente é bem recebido nas lojas comerciais, mas nem todas usam a seriedade com o cliente.

Acompanhando um amigo que fazia compras em uma das lojas de Mossoró, vi o quanto o freguês é explorado por lojas que não têm o mínimo respeito com o cliente.

Enquanto meu amigo fazia suas compras, observei um diálogo interessante, quando um senhor de idade escolhia calças e camisas para comprá-las. 


Antes de confirmar o preço, de repente apareceu um senhor (não sei se era vendedor ou gerente da mesma), dizendo para vendedora:

- Fulana, use o código “BPL” que é melhor para o seu cliente.

- É verdade! Eu nem me lembrava do código que protege os nossos clientes. Disse ela sorrindo.

Em seguida ele rabiscou uma folha com este código. E neste momento chegou um senhor o chamando. Ele saiu às pressas, deixando sobre o balcão o papel rascunhado, talvez por esquecimento.

Sem o mínimo interesse de ver o que ele havia escrito, aproximei-me do balcão. E lá, no papel estava escrito  “BPL” – "Bote Pra Lascar”.

Lógico que as peças vendidas com valores além do normal não serão para o vendedor, mas ele terá aumento de comissão.

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quarta-feira, 26 de março de 2014

Quem vai querer!

Por José Mendes Pereira
José Mendes Pereira

Não tenho conhecimento onde residia o comerciante ambulante aqui em Mossoró, do seu verdadeiro nome, apenas era conhecido no centro da cidade por "Vai Querer". Nesse período das suas vendas "Vai Querer" já passava dos setenta anos, mas apesar da idade e do seu frágil corpo, ainda era um homem de muita resistência física.

"Vai Querer" era  magrinho, de pernas finas e alongadas, alto e meio tísico, de rosto seco, camisa de mangas compridas, mas enrolada até ao tornozelo. Usava um chapéu de palhas com enormes abas,  e gostava de andar com as calças arregaçadas até ao meio da canela. Jamais deixou de usar chinelos de couro cru.

"Vai Querer" vivia fazendo das suas vendas ambulantes sobre o lombo de um jumentinho magro e desnutrido, com dois caçoas agarrados, onde neles podia se encontrar laranjas, bananas, melancias, abacaxis, frutas de um modo geral. Quem quisesse pedir outros alimentos era bastante fazer o pedido, que no dia seguinte ele estaria entregando o alimento solicitado. Mas esta sua atividade só era feita pela manhã, principalmente aos comerciários, taxistas, feirantes, carroceiros, jornaleiros, transeuntes.

Quando eu saí da indústria "Vai Querer" ainda fazia esta atividade, mas posteriormente perdi o contato com ele, e não sei em que ano faleceu.

O apelido "Vai Querer" foi criado por ele mesmo, já que saía gritando pelas ruas de Mossoró: "Quem vai querer? E com o passar dos tempo, os seus fregueses deixaram de lado "quem" chamando-lhe apenas de "Vai Querer".

Todos aqueles do comércio e da indústria de Mossoró que participaram das décadas de sessenta e setenta, tenho plena certeza que ainda lembram muito bem do velho comerciante ambulante "Vai Querer".

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terça-feira, 25 de março de 2014

Tenente Clodoaldo de Castro Meira - um delegado de moral



Por José Mendes Pereira

Segundo Jota Maria do blog: jotamaria-pcmossoro.blogspot.com.br, o Tenente Clodoaldo era natural de Parelhas, no Estado do Rio Grande do Norte. Nascido a 14 de Agosto de 1918, e era filho de José Perventino de Castro e de Úrsula Florinda de Castro. Ingressou na Polícia Militar em 12 de novembro de 1937. Foi delegado de  polícia de Mossoró, nas administrações estaduais nos governos de Dinarte Mariz, Aluísio Alves e o monsenhor Walfredo Gurgel. 

 Tenente Clodoaldo - Fonte da foto: http://jotamaria-pcmossoro.blogspot.com.br

O Tenente Clodoaldo foi um dos delegados de Mossoró que, durante o seu período como xerife, Mossoró tinha respeito. Não admitia que sujeito nenhum desmoralizasse a sua administração, e para conservar a sua autoridade sobre Mossoró, mantinha grupos de policiais rondando nos bairros e nas periferias da cidade.

rgemfoco.blogspot.com

O tenente Clodoaldo foi odiado por alguns que tentavam de toda forma diminuir a sua autoridade. Mas também foi elogiado por muitos que apoiavam a sua maneira de moralizar esta cidade.

Nos anos sessenta, eu ainda era interno da Casa de Menores Mário Negócio, e no dia em que isto aconteceu, eu fui incumbido pela diretora desta, para ir até a cadeia pública, onde hoje funciona o Museu Municipal de Mossoró, levando comigo uma espécie de telegrama, para que o delegado de Mossoró, o tenente Clodoaldo autorizasse o envio através


produto.mercadolivre.com.br

do seu Rádio Amador, para ser enviado ao Dr. Xavier, em Natal, sendo este secretário do SAM – Serviço de Assistência ao Menor, hoje, FEBEM. 


pt.wikipedia.org

Naquela época, o uso telefônico era caríssimo, e muitas empresas  e órgãos do governo, usavam mais o sistema de “Rádio amador”, que o custo era apenas o pagamento anual dos direitos de funcionamento. 


blogdogemaia.com

Ao chegar à cadeia, fui encaminhado até à sala do delegado, através de um policial que se encontrava como sentinela, dizendo-me que eu teria que pegar uma escada, para chegar até à presença do xerife.

Eu nunca tinha entrado naquele prédio. E assim que me deparei com a dita escada, tomei rumo à sala administrativa. Como eu nunca tinha visto de perto portas de salas de xerifes, ao empurrá-las, soltei-as de vez. E nesse momento o Tenente Clodoaldo vinha me acompanhando, recebendo uma forte pancada no peito, e atingindo também o seu nariz.

Recebi uma bronca do delegado, chamando-me de todos os nomes horríveis que um delegado possa dizer contra alguém.

Tentei me defender de todas as formas, dizendo-lhe que eu não sabia que ele vinha seguindo os meus passos. Mas as minhas explicações não foram suficientes para convencerem o carrasco, famoso, delegado e Tenente Clodoaldo de Castro Meira.

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segunda-feira, 24 de março de 2014

Um casarão que faz gosto conhecê-lo

Por José Mendes Pereira

Em 1968, eu ainda era um dos internos da Casa de Menores Mário Negócio, uma instituição criada pelo então político Aluízio Alves, para apoiar menores  que por uma  razão qualquer, não tinham condições de estudar.


Aluísio Alves 

A Casa de Menores Mário Negócio não tinha prédio, e nós, alunos, professores e funcionários, vivíamos de mudanças, onde residimos em vários lugares, sendo eles: Em frente à Estação de trem, um prédio de um senhor chamado Chico de Clara. Na Avenida Alberto Maranhão, prédio que pertencia a família Souto. Na Rua José de Alencar, prédio de Antonio Nunes. Na Almirante Barroso, prédio de propriedade de Tertuliano Áires...

 
Senador Duarte Filho 

Em 1968, Francisco Duarte Filho, ou Dr. Duarte Filho, ou ainda senador Duarte Filho foi eleito a senador da República, tendo sido apoiado pelo ex-governador Aluísio Alves, e residia no Palácio que hoje leva o nome de 


Palácio da Resistência de Mossoró - pt.m.wikipedia.org

Palácio da Resistência de Mossoró, sendo este, um dos mais belos prédios construídos em épocas muito distantes. O casarão tem vários quartos, sala de estar, sala de visitas, área de serviços, uma enorme cozinha,  banheiros e outras dependências, todas com enormes espaços.


Vista aérea - www.panoramio.com

São poucos mossoroenses que tiveram o privilégio de conhecer as instalações deste palácio, mas eu não só o conheço por dentro, como fui um dos que dormiu por alguns meses neste prédio. 

A minha presença neste prédio foi através de Ana Salem de Miranda (dona Caboquinha, Caboclinha, a viúva do ex-vice prefeito de Mossoró e radialista José Genildo de Miranda), diretora da Casa de Menores, na época, irmã de Maria Salem Duarte, esposa do senador Duarte Filho, que ao assumir o seu cargo de senador em Brasília, sua esposa ficara só. Como os seus filhos já eram casados, dona Caboquinha me ordenou que, todas as noites eu tinha que ir dormir no palácio para fazer companhia à esposa do senador. 

Durante o período em que eu estive lá, fazendo-lhe companhia, dona Maria Salem Duarte foi uma grande mãe para mim. E do senador Duarte Filho, recebi das suas próprias mãos, uma bolsa de estudo (CONAB), para cursar o ginásio na Escola Técnica de Comércio União Caixeiral. Mas só fiquei lá por um ano, devido horários que não davam certo para mim, transferindo-me para o Ginásio Municipal de Mossoró.

O casarão é uma das invejadas obras que a nossa cidade possui, construído no século XX.  

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domingo, 23 de março de 2014

Aldenora Santiago

Por José Mendes Pereira

Eu não tenho muito o que falar sobre Aldenora Santiago, mas tenho o dever de registrar a sua passagem aqui na terra, e principalmente a vida que levava entre os parentes e amigos em Mossoró.  

Esta senhora eu a conheci muito, não de conversar, de ter amizade, de contatos diários, mas pelo  talento que tinha, como uma grande cantora nos anos sessenta e setenta do século XX.

Aldenora Santiago era uma senhora morena, bem parecida, talvez 30 anos ou um pouco mais, e na época, residia bem próximo ao Ginásio Municipal de Mossoró, e tinha uma voz assustadora. 

Mas infelizmente, devido gostar de beber alguns goles, a cantora não recebeu apoio para chegar à fama artística. Até aparentava a cantora Elza Soares, fisicamente e voz eram iguais à famosa cantora.

Zé Maria Madrid é o de bigode - http://telescope.blog.uol.com.br

Quando o radialista Zé Maria Madrid criou  aos domingos, às 9 horas da manhã, um programa de auditório no cine Caiçara, com o nome Zy & 20, ela sempre participava, sendo aplaudida pelos seus fãs, que tinham uma grande admiração pela futura cantora.

telescope.blog.uol.com.br

Aldenora Santiago sempre foi bem recebida pelos mossoroenses, mas infelizmente ela não passou disso, porque vivia um pouco ébria. 

Não tenho notícias de qual família ela pertencia, mas só sei que foi uma cantora que com aquele vozeirão, aos domingos, lotava o cine Caiçara de Mossoró.

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sábado, 22 de março de 2014

Histórias de Onças

Por José Mendes Pereira


Todas as noites, sentado sob o telheiro da velha e desmoronada casinhola, seu Galdino Fantasias esperava a visita do Leodoro Gusmão, para lhe contar histórias de onças. Vizinhos de longos anos, quando haviam comprado propriedades no mesmo ano, e por sinal, compadres de batismo, quando na igreja de Santa Luzia em Mossoró, seu Galdino apadrinhou o filho mais novo do Leodoro Gusmão.

Catedral de Santa Luzia - Mossoró  - www.panoramio.com 

Entre os dois vizinhos havia uma amizade mútua, e até uns diziam em boca de cumbuca, que seu Galdino gostava muito de fazer visitas ao velho compadre Leodoro, só quando ele não estava em casa. Pois aquela visita, era devido um antigo e duradouro relacionamento amoroso que ele mantinha com a Gertrudes, a esposa do Leodoro.

Outros afirmavam que não. Dona Gertrudes era uma senhora honrada, e jamais deixaria o seu nome cair em patotas de devoradores de honras, ou mesmo em reuniões de vizinhos nas calçadas. Mas como ninguém tinha certeza das conversas que circulavam na redondeza, sobre o engodo amoroso do casal, apenas conversavam entre os dentes outras infidelidades da Gertrudes.

Há dias que o Leodoro não aparecia na residência do seu Galdino, pois em companhia da Gertrudes haviam se ausentado do lugar, e juntos, abalaram-se às terras cearenses, para fazerem visitas a uma filha que morava em Juazeiro do Norte. Um passeio formidável e merecido, para matarem as saudades; pois já fazia cinco anos que pais e filha não se viam de perto.

Como o retorno do casal iria demorar, Leodoro deixara a propriedade sobre os cuidados do compadre seu Galdino, e este sendo zeloso, cuidava dos afazeres rotineiros.

Um mês depois Leodoro retornou à velha morada, pois afirmara que já estava com saudade das belas histórias de onças, todas contadas por seu Galdino.

Nessa noite, o Leodoro chegou à boquinha da noite à casa do seu Galdino.

- A banque-se compadre, a banque-se. – Ordenou-lhe seu Galdino.

- Sim senhor! – Fez o Leodoro se sentando num velho banco de tábua de aroeira, plainado pelo carpinteiro Dodoca.

- E o passeio compadre, foi bom? – Quis saber o seu Galdino.

 Estátua de Padre Cícero no Juazeiro do Norte 

- Muito bom compadre! Muito bom! Conheci alguns lugares daquela terra cearense. No Juazeiro vi de perto a estátua do meu Padim Pade Ciço, como o chamava o bandoleiro Lampião. Isso é uma imensidão de estátua, com vinte e sete metros de altura, compadre! O senhor se cansa só em olhar para cima.


Depois de Juazeiro conheci o Crato (terra do amigo Manoel Severo, editor do blog Cariri Cangaço), que me deixou abismado com as suas belezas. 


O dia seguinte, levaram-me até Barbalha, e quanto mais meu olhar via as belezas de lá, mais ele queria ver coisas fantásticas. Além dessas que eu já citei compadre, fiz visita às pressas à Missão Velha, e outras e outras cidades da região cariri. Fui bem recebido por todos de lá. Por onde eu passei compadre, só conheci gente hospitaleira e decente, e ponha decência nisso, como é o povo do Ceará.

- Compadre, e Canindé o senhor o conheceu. – Perguntou-lhe seu Galdino.

- Não compadre! A nossa viagem estava programada para Juazeiro, e não para o Canindé de São Francisco...

- Ah, sim!... E...

Ali, sentados sob o telheiro, os compadres conversaram muito sobre a maravilhosa visita às cidades cearenses, feita por Leodoro. E num momento, o Leodoro, que já fazia mais de mês que não ouvia histórias de onças, contadas por seu Galdino, quis saber sobre as suas caçadas e façanhas.

Seu Galdino como gostava de contar as suas aventuras, sem menos pensar, saiu com uma novinha em folha. Esticou-se um pouco sobre o assento, enquanto fabricava um cigarro de fumo arapiraca. Em seguida disse-lhe:

- Ultimamente compadre, eu tenho caçado muito pouco. Como o senhor sabe, as minhas cercas estão todas precisando de reparos, e se eu não as reparar, com certeza o milho que está para ser quebrado, as criações dos nossos vizinhos irão devorá-lo, mas a semana passada – continuava ele - eu passei uma coisa que tenho certeza que ninguém quer para si.

- E o que foi que aconteceu com o senhor, compadre Galdino? – Perguntou-lhe Leodoro em tom de piedade.

- Para que o senhor entenda o que aconteceu comigo, eu tenho que lhe contar desde o começo. Na semana passada, bem cedo, eu saí beirando cerca – dizia ele colocando uma mão atrás da outra, fazendo o gesto de caminhar - no intuito de reparar as cercas, isto é, amarrar alguns arames que estavam soltos das estacas. E segui fazendo este trabalho. Eu havia levado aquela espingarda “marca-bombo” que o senhor muito bem a conhece...

- Sim Senhor! – Confirmou o Leodoro.

- Como eu já estava decidido para ir consertar as cercas, a noite anterior, eu preparei o meu bornal com chumbos, espoletas, pólvoras e buchas de mororó...

- Sim senhor! – Fez o Leodoro.

- E saí para cumprir a minha missão de reparar as cercas. Bem perto do “Riacho Negro” eu me deparei com um tamanduá enorme. Fiquei pensando. Mato-o ou não o mato o pobre infeliz...

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- Que sorte compadre, essa sua, de ainda ter encontrado nestas matas um tamanduá.

- Muita! Pois sim...!, ele estava montado sobre um galho de um jucá. Quando ele me viu, quis descer. Mas eu com aquela dúvida mato-o ou não o mato, fiquei afiando a foice, no intuito de dar uma única foiçada no miserável.  Distraí-me. E quando cuidei, ele já havia descido do galho e foi saindo lentamente, como se fosse fugindo para se esconder de mim. Assim que eu me aproximei dele, eu não tive mais coragem de matá-lo.

- Mas por que compadre Galdino, o senhor não quis mais matá-lo?

- Compadre, o que ele fez diante de mim me deixou penalizado. Ele ficou de pé, como se estivesse me pedindo: -Não me mate, seu Galdino! Não me mate, seu Galdino! Mas o senhor sabe que quem é pobre é assim mesmo.

- É verdade compadre. É verdade. – Confirmou o Leodoro.

- E naquela confusão mato-o ou não o mato, findei me decidindo, e larguei a foice sobre o seu pescoço.  Em seguida o coloquei em meu bornal, e fui-me embora, isto é, corrigindo as cercas.  Lá pelas tantas me veio a fome. Eu já estava no riacho da “Espera do Padre”, e lá, eu fiz rancho embaixo daquele frondoso e viçoso pé de juazeiro, o qual o compadre o conhece muito bem.

- Muito, muito! – Reforçou o Leodoro.

- Quando eu estava colocando a comida no prato, o leite e cuscuz de milho, mais rapadura e duas tapiocas que a Dionísia havia feito para o meu lanche, mais gergelim pisado e coisa e tal..., sabe o que me apareceu de repente em minha frente, compadre?

- Compadre, eu não tenho a mínima ideia. – Respondeu-lhe o Leodoro.

- Duas enormes onças!


- Duas enormes onças compadre, naquela mata? – Perguntou-lhe o Leodoro se admirando.

- Sim senhor!  E me parece que ambas eram irmãs, porque o tamanho de uma, era o mesmo tamanho da outra.

- E o que o senhor fez para se livrar das onças, compadre?

- De início, nada. Não tinha o que fazer mesmo. Quando eu as vi, me benzi logo. Dois búfalos daqueles na minha frente, com certeza eu estava frito.

- Espera-me meu compadre, eram duas onças, ou dois búfalos?

- Eram duas onças, compadre! Eu disse búfalos, imaginando o tamanho das duas feras famintas. As duas eram pra mais de quarenta arrobas.

- Meu Deus! – Exclamou o Leodoro.   Em seguida perguntou-lhe: - Mas compadre, e por que o senhor não atirou logo nessas onças?

- Primeiro que tudo, eram duas. Segundo, por que eu não tinha mais pólvora, pois ao passar o “Riacho da Espera do Padre”, a água molhou o polvarinho e as espoletas, e com isso, fiquei sem condições de atirar em qualquer vivente. E terceiro, se eu ainda tivesse munição, e se eu chegasse a atirar em uma delas, com certeza, a outra me devoraria em questão de segundos.

- É verdade, compadre! É verdade! – Reforçou o Leodoro.

- Mas como sempre tem algo que protege a gente – continuou ele -  e acredito que é mandado por Deus, eu tive a seguinte ideia:

- E qual foi essa ideia, compadre? – Perguntou o Leodoro querendo adiantar a conversa.

- Lá, elas estavam de cócoras, olhando para mim. Como eu tinha morto o pobre e infeliz tamanduá, tirei-o do bornal, o abrir, deixando as carnes expostas, e o joguei em direção a uma delas. Eu já tinha imaginado que se eu jogasse o tamanduá para uma, e se a outra me atacasse, eu iria lutar com ela, com a minha foice até vencê-la. E assim fiz. Joguei o tamanduá para uma, e com isso, a outra não querendo ficar sem carne, logo as duas se atracaram. Lá, onde elas se atracaram, tem uma ladeira. Elas agarradas, saíram de ladeira abaixo. Como as duas estavam descendo na ladeira, isto é, de cima para baixo, eu pequei o tamanduá e fiz carreira por dentro da mata, correndo, correndo, correndo e até que saí em minha casa. E graças a Deus salvei a minha pobre e estimada vida. E por isso eu estou aqui lhe contando essa história.

- Quer dizer compadre, que o senhor além de ter se livrado das duas onças, ainda recuperou o tamanduá?

- E eu brinco, compadre!? – Fez seu Galdino se gabando.

- Bem pensado, compadre! Bem pensado!...

- Isso é que se chama inteligência, compadre Leodoro! – Dizia seu Galdino batendo a sua mão na cabeça.

- E ponha inteligência nisso, compadre!

Ali, seu Leodoro admirava-se da inteligência do compadre. E minuto depois resolveu ir embora.

- Eu vou embora compadre Galdino, porque já passa da meia noite, e pode ser que uma dessas suas onças apareça lá em casa. Gertrudes está sozinha, e a porta da minha cozinha está muito fraca.., e acredito que se uma dessas onças que o senhor viu, se acertar a minha  casa, só com o peso das suas patas botará a porta dentro, e irá devorar a pobre Gertrudes.

E levantando-se do velho bando, seuLeodoro despediu-se do compadre dizendo:

- Até amanhã, compadre! Até a manhã! – Repetiu ele.

- Até, compadre! – Respondeu-lhe seu Galdino dizendo bem baixinho, zombando do Leodoro. Deixa que quem vai continuar devorando a Gertrudes, sou eu, e não as onças! Fora camaradas onças!

Mas enquanto caminhava, o seu Leodoro dizia consigo mesmo:

- Mas que lapa de compadre mentiroso eu tenho! Nossa!

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