quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Aposentadoria por esperteza

Por: José Mendes Pereira


Em anos remotos o Instituto Nacional de Previdência Social hoje INSS, tendo este mudado  de nome por várias vezes era muito desorganizado, e por falta de administração ou controle, não sei, muita gente adquiriu a sua aposentadoria usando diagnósticos falsos, quando era aposentado por qualquer motivo, até mesmo sendo beneficiado com um simples corte na mão, no pé, enfim, para ter direito a benefícios tudo era válido, e uma das aposentadorias ou benefícios mais fáceis era para aqueles que trabalhavam na produção do sal, o chamado salineiro, que alguns metiam a picareta num dedo, ou mesmo na canela, corria até ao INPS, e já estava assegurado por um bom tempo, o chamado benefício por acidente, vez que ninguém consegue trabalhar em colheita de sal com ferimentos, pois o sal jamais deixará o ferimento fechar por completo.


Zé Pretinho era um senhor mossoroense, e que se empregara em uma repartição do governo estadual já com a idade avançada, na função de auxiliar de serviços gerais, e além disto, não era um funcionário que tinha interesse pelo seu emprego, e estava ali, na finalidade de adquirir uma oportunidade para correr com os seus documentos até ao INPS, e lá, lutar pelos seus direitos, já que era um homem velho. Fez tudo para que desse certo a aprovação da sua aposentadoria, mas tudo era em vão.

Chegou até fingir que estava maluco, quando várias vezes, os próprios amigos de trabalho viram-no falando sozinho, dançando com uma ferramenta nas mãos, como se fosse uma mulher nos seus abraços. Se usava uma enxada, fingia ser um machado que cortava, uma picareta que cavava, um carro de mão..., e assim foi tentando enganar o seu chefe.

Como os seus amigos acreditavam que realmente o Zé Pretinho estava ficando louco, levaram o assunto ao chefe, afirmando que o que Zé Pretinho fazia,  mesmo sem eles estarem presentes, eles não tinham dúvida, o Zé Pretinho estava ruim da bola, e que o chefe o encaminhasse ao INPS, para uma possível aposentadoria.

Mas se o Zé Pretinho era esperto, fazendo-se de louco, na finalidade de adquirir a sua aposentadoria, muito mais esperto era o chefe, pois não acreditava em tal loucura do Zé Pretinho.

O chefe  chegou a dizer que só acreditava que o Zé Pretinho estava mesmo enlouquecendo, se ele um dia chegasse lá na repartição rasgando dinheiro e comendo cocô de gente. Mas o chefe não imaginava que em uma das salas da repartição, o Zé Pretinho ouvia tudo o que o chefe dizia ao seus comandados.

Já ciente que se isto fizesse o seu chefe o encaminharia até ao INPS para cuidar do seu direito, no dia seguinte, o Zé Pretinho chegou à repartição, e antes que iniciasse as suas obrigações rotineiras, puxou do bolso uma cédula de Mil cruzeiros, rasgou-a na presença do chefe. E em seguida fez o mesmo com um cocô seco, e comeu  na presença do chefe.

O chefe ao presenciar isto, notou que o Zé Pretinho estava mesmo louco, e teria dito diante de todos os seus subordinados: "- Já vi que o Zé Pretinho está mesmo maluco".

Logo cuidou de encaminhar o Zé Pretinho até ao INPS, informando aos agentes que o mesmo estava maluco. E pelo o que ele presenciou, não era necessário exames comprobatórios. O homem estava mesmo maluco. 

Deu certo as artes manhas  do Zé Pretinho, pois era tudo o que ele queria, aposentar-se e sair daquele inferno.

Em anos passados, quem não usava as suas espertezas para tirar proveito  do INPS, ficaria sem benefícios e a aposentadoria só depois que completasse a idade.

Minhas Simples Histórias

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sábado, 14 de dezembro de 2013

João Leodoro

Por José Mendes Pereira

João Leodoro, só, era o seu verdadeiro nome. Cearense até os poucos dentes que lhes restavam na boca. Lá das terras do José Cícero, Aurora. Meio tísico, fanhoso, amigo para todas as horas. Não aceitava malandragens; exigente às suas amizades. Ou era seu amigo, ou estava descartado do seu ciclo de amizades. 

Trabalhava na antiga "Comensa" de Mossoró, atualmente "Cosern", época em que Mossoró era abastecida com luz elétrica até às onze horas da noite. Depois desse horário, Mossoró se tornava um verdadeiro breu, a luz só retornava às seis horas do dia seguinte. 

Certo dia, enquanto conversava em patotas de amigos, surgiu um assunto que ninguém quer falar. Morte. Sim senhor! Assunto que se paga para que não seja relatado em lugar nenhum. e principalmente quando   é dirigido à pessoa. 

Ali, três ou quatro estavam afirmando como queriam ser lembrados após a sua morte. 

O Tobias que não tinha medo da morte, assim afirmava ele, disse que queria ser lembrado pelos seus queridos amigos, que fora um homem trabalhador, amigos de todos, religioso, não tinha sido  bonito, mas também não tinha sido dos mais feios, e dono de uma simpatia extraordinária. Rosas por todos os cantos da sala e uma corrente para controlar a entrada das pessoas, isto é, limitada visita. E as pessoas que lhe visitassem, estivessem todas com trajes de corte.

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O Cordiniz pôs-se a dizer que queria ser lembrado pelas suas atitudes certas. Havia amado e fora também amado. Jamais tinha negado um pão  àqueles que eram necessitados. E em sua volta, uma porção de mulheres rezando um terço.

 

Outros e outros apresentaram os seus desejos como queriam que fossem lembrados. 

O João Leodoro, esperto, ganancioso pela vida, cearense que adora viver, e não desejava dizer nada sobre o seu velório, foi se levantando do lugar em que havia se sentado, e caminhou em busca dos maquinários da Comensa, afirmando ele que iria abastecer o motor que fazia o gerador produzir luz.

Mas os companheiros de trabalhos não o deixaram ir, sem dizer o seu desejo, que os amigos diziam enquanto pastoravam o seu corpo, perguntou um:

- E você João Leodoro, o que quer que seus amigos lhe digam enquanto estiver pastorando o seu corpo?

O João Leodoro olhou para um lado, depois para o outro, e soltou o seu desejo: 

- Eu quero que quando eles estiverem olhando o meu corpo, um deles ao me observar, solte a voz com muita alegria dizendo: "Ele está vivo! Ele está se levantando, gente! Olhem! Olhem! Ele não morreu gente!". 

Cearense morrer, nunca!

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